HOMILIA NO V DOMINGO DA QUARESMA A 2026
1. “Senhor, o teu amigo está doente” (Jo 11,3).À triste notícia, Jesus não se precipita nem reage com pressa ansiosa; dá tempo ao tempo, para que se manifeste a glória de Deus! Entretanto, quando Jesus chega, passaram-se já quatro dias e é claro que Lázaro morreu e está bem morto; não havia já qualquer esperança de vida ou de reanimação, passado o terceiro dia da sua morte. Entretanto, Jesus deixa que Marta e Maria venham ao seu encontro, desabafem a sua dor. Jesus aproxima-se primeiro da dor de uma e de outra e comove-se intimamente, com todos os que choram a morte de Lázaro. Jesus chora! Não fica à distância do drama humano da morte e dirige-se até à gruta do túmulo. Jesus toca sem qualquer medo de contágio a realidade desta nossa carne frágil, da doença, da dor, do sofrimento, da morte, do luto. E quer envolver-nos e desenvolver em nós o tato e o contacto com esta fragilidade humana, por isso agiliza o nosso tato e ordena: «tirai a pedra», removei os obstáculos ao contacto com a realidade; e logo depois de Lázaro sair do túmulo, Jesus dá nova ordem de um contacto desprendido: «desligai-o e deixai-o ir». Que o vosso toque liberte e não aprisione. Tudo isto nos mostra quanto Jesus toca e Se deixa tocar, quanto Ele Se aproxima e Se deixa afetar e infetar, pela fragilidade da nossa condição mortal. Tocar é aceitar a vulnerabilidade da nossa condição humana: só quem se deixa tocar por dentro, pode hoje e verdadeiramente tocar a carne sofredora de Cristo, no corpo ferido e nas feridas do corpo e da alma dos nossos irmãos! “De facto, a luz do amor nasce quando somos tocados no coração” (LF 31). Por isso, para São João, a fé não é apenas uma forma de ver e de escutar, ela implica também tocar a realidade da carne: “O que ouvimos, o que vimos e as nossas mãos tocaram acerca do Verbo da Vida, é isso que vos anunciamos» (1 Jo 1, 1). “Tocar com o coração, isto é acreditar”, dirá Santo Agostinho.
2. Nesta 5.ª semana da Quaresma, o sentido que nos propomos valorizar é o do tato, o primeiro a aparecer e o último a desaparecer na nossa vida humana. O tato simboliza a proximidade, a compaixão e a experiência da fragilidade, como vias espirituais, para conhecer e tocar de perto a carne sofredora de Cristo, as suas chagas, nas feridas dos nossos irmãos e irmãs. O tato é, sem dúvida, o sentido mais exposto: ele implica proximidade, risco de contágio, contacto com a fragilidade, a doença, a morte. Um cristianismo, sem carne, sem a partilha desta nossa humanidade frágil, um cristianismo sem tato e contacto, sem o toque, sem ternura, tornar-se-ia abstrato, uma gnose, uma ideia apenas. Ora, o tato é o sentido da encarnação real, de compaixão, de misericórdia, de cuidado pelo outro, do amor concreto. Este sentido do tato é, por excelência, o sentido do amor. Onde não há um toque de ternura, de carícia, de cuidado pelo outro, não há amor! «A ternura é a melhor forma para tocar o que há de frágil em nós»(Patris corde, 2).
3.Irmãos e irmãs: não evitemos tocar e deixarmo-nos tocar pelas feridas dos irmãos. Jesus quer que toquemos a carne sofredora dos outros e que nos deixemos tocar por dentro, para conhecermos a força revolucionária da ternura (cf. EG 270). Hoje, com as novas tecnologias de comunicação, corremos o risco de preferir o clique ao toque, o dedo às mãos, de preferir relações interpessoais, virtuais, mediadas por sofisticados aparatos, por ecrãs e sistemas, que podemos ligar e desligar à vontade. Ao contrário, o Evangelho convida-nos a abrir as mãos, a abraçar o risco do encontro com o rosto do outro, com a sua presença física que nos interpela, com os seus sofrimentos e alegrias, permanecendo lado a lado. Nada substitui o toque, a carícia, o abraço, o contacto corpo a corpo. Quando se toca o corpo, é que se toca a alma! “Na sua encarnação, o Filho de Deus convida-nos à revolução da ternura” (EG 88). Isto significa abrir as mãos, tocar e deixar-se tocar. Menos relações virtuais e mais proximidade, menos coração artificial, mais revolução da ternura! Dito de modo simples, menos clique e mais toque.