Homilia breve no Domingo de Ramos na Paixão do Senhor A 2026
depois da proclamação do Evangelho da Entrada do Senhor em Jerusalém
1. Há, por todo o lado, um cheiro a Páscoa, um cheiro à Páscoa dos judeus, que comemoravam e reviviam, por aqueles dias da Lua cheia da Primavera, a libertação do Egito, a passagem do Mar Vermelho. E Jesus, o Profeta de Nazaré da Galileia, entra na cidade santa de Jerusalém, para aí celebrar e viver, na sua própria carne, a sua Páscoa, a sua «passagem» deste mundo para o Pai» (Jo 16,28). Cumprindo a antiga festa, Jesus inaugurou a nova Páscoa. Ele é a “nossa Páscoa, imolada” (cf. 1 Cor 5, 7).
2. Cheira a Páscoa. Sim. Diria que Jesus traz ainda nos seus pés o cheiro do perfume, com que Maria de Betânia o ungira, seis dias antes da Páscoa (cf. Jo 12,3). Judas, aquele que O havia de entregar, sugeriu então que a libra de perfume de nardo puro, de alto preço, fosse vendida para dar aos pobres, fingindo estar preocupado com a sua miséria; mas, na verdade, isto cheirava já a corrupção: “falava assim porque era ladrão e, como tinha a bolsa do dinheiro, tirava o que nela se deitava” (Jo 12,6). Jesus, ao contrário, elogia o gesto de Maria, ao ungir os seus pés com perfume: um gesto de amor excessivo, de ternura, de compaixão, anúncio da sua morte, prenúncio da sua ressurreição. E, por isso, Jesus responde a Judas: «Deixa que ela o tenha guardado para o dia da minha sepultura» (Jo 12,9). Na verdade, o cheiro daquele perfume, que encheu toda a casa, guarda na memória a presença invisível do Senhor, que permanecerá, para lá da sua ausência física. O cheiro não se vê, não se prende, permanece na ausência. Este perfume evoca assim a presença invisível do amor, a memória viva do amor, que não passará nunca. O perfume deixa a marca de uma presença, que não se deixa possuir. Deixemos então apurar o sentido olfato, para cheirarmos a Páscoa, para guardarmos a memória viva daquele Jesus que permanece vivo em nós e para nós.
3. Irmãos e irmãs: ao bom cheiro dos pés perfumados de Jesus, que pisava as capas estendidas no caminho, acrescenta-se ainda a fragrância dos ramos verdes de árvores cortadas, a frescura vinda das flores da primavera, os aromas das especiarias orientais, no mercado da Páscoa, com gente vinda de todos os lados. É um ambiente de cheiroso entusiasmo, de grande festa popular. Mas este perfume - como veremos é apenas uma fragrância passageira, um entusiasmo que se converterá em rejeição. A mesma multidão, poucos dias depois, deixar-se-á contaminar pela corrupção malcheirosa do poder, da mentira, da hipocrisia.
4. Hoje, aqui e agora, agitemos com alegria os nossos ramos e aclamemos e demos vivas a Jesus, o “Filho de David”, quer dizer, o Messias. E que significa este título de Messias, o Filho de David? Significa que Jesus é o Ungido, o Escolhido, o Rei prometido e investido, sobre o qual se derrama o óleo perfumado.
E nós, agitando estes ramos, enchamos esta casa com a fragrância do perfume de Cristo! Sejamos, para Deus e para os outros, o bom odor de Cristo, «o odor da vida que conduz à vida»! (2 Cor 2,14-16).
Homilia no Domingo de Ramos na Paixão do Senhor A 2026
depois da proclamação do Evangelho da Paixão do Senhor
1. O Evangelho da Paixão deixa exalar o cheiro da Páscoa, onde se confundem dois odores opostos: “o odor da morte que conduz à morte e o odor da vida que conduz à vida” (2 Cor 2,16). A Paixão de Jesus não é apenas a história da violência contra um justo e inocente. É também a revelação de um mundo corrompido até aos ossos! O mau cheiro da corrupção, da podridão e do pecado organizado, atravessa diversas cenas e personagens da Paixão de Jesus e pode também infiltrar-se no nosso coração. Consideremos alguns maus-cheiros da corrupção:
1.1. Tudo começa com um acordo, às escondidas. Judas aproxima-se dos príncipes dos sacerdotes e pergunta: “Que estais dispostos a dar-me para vos entregar Jesus” (Mt 26,15)?Sente-se o cheiro do interesse, do cálculo, do dinheiro, que compra consciências. Este discípulo de Jesus troca a amizade por uns trocos, transforma a relação em negócio. A corrupção começa assim: quando deixamos de ver pessoas e começamos a ver vantagens, quando tudo se mede em função do que se ganha. Mais adiante, o beijo com que Judas trai Jesus (Mt 26,40), traz o cheiro da hipocrisia religiosa e moral: por fora, gestos delicados; por dentro, o coração distante. O corrupto procura sempre iludir e mostrar boas maneiras, para esconder os seus maus costumes!
1.2. Pedro evidencia, nas três negações, o cheiro do medo, que o faz ceder (Mt 26,69-75). Pedro não vende Jesus, mas nega-O para se proteger. Também isto é corrupção do coração: quando, por medo de perder algo — prestígio, segurança, aceitação — se trai a verdade e a amizade. Felizmente, o remorso ainda não estava anestesiado em Pedro e este pôde arrepender-se, converter-se e ser salvo!
1.3. Há, em todo o processo de condenação de Jesus à morte, o cheiro do poder corrompido. O Sinédrio procura um depoimento falso e decide a morte de Jesus, antes mesmo de O julgar. Pilatos sabe que Jesus é inocente, mas dá a ideia de que o assunto não lhe diz respeito e daí lava as mãos (cf. Mt 27,24), para defender a sua zona corrupta de adesão ao poder a qualquer preço. Aqui o cheiro torna-se mais forte: é o cheiro da corrupção da justiça, do poder, das instituições, que se pode comparar ao cancro de uma sociedade, onde parece normal a troca de favores e interesses, em que «uma mão lava a outra», como se fosse uma virtude. Quando a verdade é sacrificada no altar da conveniência, quando a justiça se dobra à pressão política ou mediática, a sociedade começa a apodrecer por dentro!
1.4. Há ainda o cheiro daquela multidão infetada e manipulada pelos seus líderes populistas. A mesma multidão, que aclamava Jesus, com ramos verdes, grita agora: “Crucifica-O” (Mt 27,23)! Quando deixamos de pensar por nós próprios, quando nos deixamos arrastar pelas emoções, deixamos de discernir os sinais, tornamo-nos parte de um sistema, que faz o mal, sem sequer o perceber, como quem exala um mau hálito e não se dá conta disso!
2. Irmãos e irmãs: perguntemo-nos: Que cheiro deixo por onde passo? O cheiro do interesse ou cheiro da gratuidade? O cheiro da hipocrisia ou o cheiro da verdade? O cheiro do medo ou o cheiro da fidelidade? O cheiro da rejeição ou o cheiro da proximidade? O cheiro do interesse ou do serviço? Na Sua Paixão, Cristo exala, por toda a parte, o perfume do amor, que Se entrega até ao fim!
3. Nós somos cristãos, o mesmo é dizer, somos ungidos pelo perfume de Cristo! Sigamo-l’O, pois, pelo caminho da cruz, vamos no rasto dos seus passos e dos seus pés perfumados pelo amor, pela compaixão, pela não violência, pelo perdão.
Nesta Semana Santa, este é o desafio: “Abre o teu olfato. Cheira a Páscoa”. Não te feches no quarto, areja o teu coração, para que não cheire a mofo. Sai de casa, para a rua, para a Igreja. Cheira a Páscoa. Menos quarto. Mais jardim. Sê, para Deus e para os outros, o bom odor de Cristo, o odor da vida que conduz à vida (2 Cor 2,14-16)!