Liturgia e Homilias no IV Domingo da Quaresma A 2026
Destaque

Celebramos o IV Domingo da Quaresma. Diante de nós, permanece o apelo fundamental da nossa caminhada: “Abre-te. Da Quaresma à Páscoa, um caminho com sentido, um caminho com sentidos”. Depois de afinarmos o sentido do ouvido e do paladar, somos desafiados, neste 4.ª semana da Quaresma, a abrir os olhos, a aclarar e ampliar o sentido da visão, para aprendermos a ver Jesus e a ver com os olhos de Jesus. O encontro de Jesus com o cego de nascença quer abrir os nossos olhos.

Homilia no IV Domingo da Quaresma A 2026

A Palavra de Deus oferece-nos um verdadeiro “Ensaio sobre a cegueira”.

1. Desde logo, a primeira leitura, põe de relevo que o essencial é invisível aos olhos: «Deus não vê como o homem; o homem vê as aparências, Deus vê o coração» (1 Sm 16,7). A afirmação, tão clara quanto luminosa, é um convite a lutarmos contra a ditadura da imagem, contra a obsessão pela cosmética artificial do corpo, sem a beleza ética ou interior da alma. Podemos ler aqui um apelo a abandonarmos o excesso de luzes, a exposição mediática, o culto da imagem, o narcisismo e o exibicionismo, tão patentes, por exemplo, nas concorridas selfies. Larguemos o espelho e a selfie, para olharmos, pela janela, para além de nós mesmos, para olharmos e vermos o mundo com os olhos de Deus!

2. O Evangelho usa de uma fina ironia, para nos mostrar, em torno do cego, todo um mundo de cegos e de cegueiras de várias categorias. Desde logo, a cegueira popular dos vizinhos e dos pais do cego, alimentada pela ignorância e pela má informação: é a cegueira de quem só vê o que quer ver. Depois, em contraluz, a cegueira intelectual dos fariseus, que não querem ver o que é visível à vista desarmada. Estão cegos pelas suas ideias feitas, pelas suas tradições, incapazes de ver a realidade e olhar a novidade. É também uma cegueira moral, porque estão cegos pelo preconceito e pelos juízos de valor. Estes fariseus confirmam o provérbio de que “pior cego é o que não quer ver”. Como enfrentam e afrontam a Luz, que é Cristo, permanecem cegos! Se se deixassem iluminar, poderiam ser curados da cegueira. À luz do dia, temos a cura do cego de nascença. Ele é curado, não apenas da sua cegueira física, mas também da cegueira espiritual. Os olhos da fé abrem-se-lhe pouco a pouco: primeiro, Jesus não passava para ele de um homem desconhecido; depois vê e reconhece que Aquele que o curou só pode vir de Deus; chega mesmo a dizer que é um Profeta, até professar a fé plena, no frente a frente com Jesus: “Eu creio, Senhor”. A fé aparece aqui como uma visão, como “um caminho do olhar, em que os olhos se habituam a ver em profundidade” (LF 30).A fé é, pois, uma forma de ver e aprender a ver. Somos desafiados pela visão da fé, não só a ver Jesus, mas a ver os outros com os olhos de Jesus, isto é, a participar da Sua própria visão (cf. LF 21). “Só quando somos configurados com Jesus é que recebemos o olhar adequado para O ver” (LF 31).

3. Irmãos e irmãs: O sentido a ativar nesta quarta semana da Quaresma é o da visão: Abre os teus olhos: olha e vê. Precisamos todos, que Jesus nos cure de toda a espécie de cegueiras: o olhar distraído, o olhar superficial, o olhar dominador, o olhar inquisidor. Limpemos dos nossos olhos as cataratas do preconceito, dos juízos, da vista apressada e cansada, para alcançarmos aquele olhar atento ao pormenor, olhar contemplativo, olhar que vê a realidade com espanto, surpresa e admiração, que vê tudo com os olhos de Deus: vê as feridas do mundo, vê os pobres, vê os excluídos, mas vê também os sinais de esperança, vê com o coração, com misericórdia.

4. Mas sobretudo deixo-vos um desafio, ainda mais concreto: Abre os teus olhos: ver menos. Reparar mais. No Prefácio do seu livro “Ensaio sobre a cegueira”, escreve José Saramago: “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”. Este é um bom colírio (Ap 3,18) para a cura da nossa cegueira: Ver é reparar. E reparar é parar para ver. Reparar é voltar a ver. Reparar é construir a atenção. Reparar é reconstruir uma imagem. Só quando reparamos, é que começamos a ver! A experiência espiritual do olhar começa precisamente quando aprendemos a ver demoradamente, quando o nosso olhar deixa de ser apressado e se torna contemplativo! Nesta 4.ª semana, façamos jejum de écrans, de imagens, de fotos, de holofotes, que nos cegam. Fechemos os olhos a tudo isso, para vermos melhor, para vermos o coração, para vermos com o coração. Levemos a peito o desafio que gravamos no selo para esta semana: «Abre os teus olhos: Ver menos. Reparar mais». E há tanto a reparar!

 

Top

A Paróquia Senhora da Hora utiliza cookies para lhe garantir a melhor experiência enquanto utilizador. Ao continuar a navegar no site, concorda com a utilização destes cookies. Para saber mais sobre os cookies que usamos e como apagá-los, veja a nossa Política de Privacidade Política de Cookies.

  Eu aceito o uso de cookies deste website.
EU Cookie Directive plugin by www.channeldigital.co.uk